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Guia de Eventos de Setúbal

pessoa

João Mendonza

“Vou cantar toda a vida”

janeiro 2026

Mais do que a cidade que o viu nascer, Setúbal é parte integrante da identidade de João Mendonza.

O tenor setubalense cresceu na Baixa, entre a catequese, na Igreja de São Julião, a escola, na Avenida 5 de Outubro, e o negócio da família, na Rua Álvaro Castelões, e ainda hoje vive no mesmo espaço que moldou o seu imaginário.

Foi na infância que começou a paixão pela música, quase como uma brincadeira. “Adorava imitar vozes de cantores de ópera para fazer rir os outros, mas aquilo até soava bem. Nas festas da escola, era sempre convocado para cantar e, aos poucos, surgiu algo que eu queria muito.”

Quando disse aos pais que queria ser cantor “eles riram-se”, mas quando perceberam que era a sério apoiaram a concretização do sonho. “Se não fosse o apoio deles, eu não tinha conseguido ser hoje profissional na música.”

Aos 12 anos entrou para o Conservatório Regional de Setúbal e mais tarde foi para o Conservatório Nacional, em Lisboa, onde concluiu os estudos em Canto. Em paralelo, licenciou-se em Comunicação Social e teve alguns trabalhos nas áreas da comunicação e da produção de eventos, mas o palco falou sempre mais alto.

Nunca há um momento em que o músico se torna músico. É, sobretudo, um estado de espírito. A música vai ser sempre a minha paixão. Vou cantar toda a vida, nem que seja no duche.”

Começou por ter uma banda rock, os Radiophone, que atuaram na Feira de Sant’Iago. “Foi uma oportunidade e um desafio muito interessante, mas que também serviu para perceber o que não queria”, reconhece, assumindo que esse percurso ajudou a afunilar o caminho no canto lírico.

Em 2015, foi cofundador do grupo Passione, projeto que lhe deu projeção nacional e proporcionou momentos marcantes, como a receção pelo Papa Francisco, no Vaticano, em 2018.

O Papa quis agradecer pessoalmente a homenagem feita no tema original “Ave Maria”, que lhe foi entregue como “Oferenda Oficial do Estado Português” pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, aquando da peregrinação a Fátima em 2017.

“Foi o momento mais intenso da minha vida. Além da honra, senti uma paz enorme.”

Após a pandemia e a participação no programa televisivo All Together Now, em 2021, decidiu seguir carreira a solo. Desde então, tem trabalhado com orquestras em Portugal, no Brasil e em França.

Em 2022, lançou o álbum “Ao Vivo”, cuja venda ajudou a financiar uma viagem à Ucrânia, numa experiência que descreve como dura, mas transformadora.

“Vi um país completamente cinzento e devastado pela guerra. Cantei muito em português. Eles não percebiam nada, mas sentiam o meu carinho e foi para isso que eu fui.”

O futuro passa pela preparação de um novo álbum de originais e pela reinvenção dos espetáculos, “saindo do ambiente intimista das igrejas para chegar a um público mais abrangente” e aproximando-se do cancioneiro português e do fado, sem abandonar a matriz lírica.

Sonha com a internacionalização, para “cantar nos palcos grandes do mundo”, e com um projeto maior para “afirmar Setúbal como referência cultural, valorizando mais a importância de Luísa Todi”.

O caminho até viver exclusivamente da música foi longo, mas, aos 34 anos, João Mendonza sente-se privilegiado por conseguir dedicar-se “100 por cento” à sua vocação. Mais do que um trabalho, “ser músico é um estado de espírito” e um sonho que continua em construção.