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“Em música vale tudo”

Renato Sousa

julho 2019

Com 11, 12 anos, “coisa desse género”, começou a tocar guitarra clássica e nunca mais abandonou a música. Não só não a abandonou, como abraçou-a como poucos. Renato Sousa é eclético, em toda a magnitude que o adjetivo permita. O conjunto de bossa nova com que atua agora poucas semelhanças terá – para não dizer nenhumas – com a banda “da pesada” em que tocou quando era adolescente.

Camisa aprumada, cabelo e barba bem aparados, calças de sarja sem um único vinco. Esta é a imagem de Renato chegado aos 33 anos, guitarrista que incorpora os projetos The Bossa Alibi e Delamotta, este último condimentado por géneros como tropical rock, latin blues, afro folk e punk jazz.

No início, “depois dos clichés habituais com os primeiros toques na guitarra clássica”, sentiu ânsias em replicar referências que seguia atentamente, casos de King Crimson, Queen e Pantera.

No seguimento da génese, os gostos musicais continuaram a divergir dos atuais. Também, garante, divergia o visual, com cabelo comprido, roupa preta e rasgada e guitarra elétrica com atitude a condizer. Tocou no grupo de death metal Monógono, fez digressões, passou horas na estrada. “O pacote completo.”

Renato Sousa tem dificuldade em explicar o aparente paradoxo de apreciar um espectro musical com uma largura de banda tão ampla que viaja do rock pesado à música clássica de Stravinsky. E, pelo meio, ainda atira nomes como Sérgio Godinho, Beatles e Nirvana.

Sempre sentiu necessidade de se completar com diferentes ritmos. “Por exemplo, houve uma altura em que só ouvia metal e Carlos Paredes.” Mesmo quando estava nos Monógono sentia-se incompleto. “Não me identificava com as letras. Eram muito sanguinárias”, recorda, apesar de confessar que, como instrumentista que é, nem sempre dá importância às letras das músicas que ouve.

Se David Bowie foi o camaleão do rock, apetece dizer que Renato Sousa é um camaleão da música.

Domina diferentes géneros, não se revendo como um virtuoso em qualquer um deles. “As técnicas que controlo satisfazem-me para a música que pretendo.”

Mas gostos tão latos, com um alcance tão extenso que chegam a tocar o misticismo oriental, não afetam a identidade de Renato enquanto músico? “Sim, no sentido de andar constantemente à procura dela. Convivo bem com isso. Primeiro, significa que não estagno. Segundo, significa que me permite descobrir novos sons. Gosto disso.”

É com esta atitude que Renato Sousa se redescobre em 2019. Enquanto participa nos The Bossa Alibi e Delamotta, embarca, também, na aventura a solo. Com as origens ao colo, ou seja, a guitarra clássica, reinterpreta vários temas de José Afonso, num trabalho que pretende materializar em disco.

Será absurdo perceber um pouco de metal nessas reinterpretações? Zeca Afonso com melodia de death metal, quem sabe? [risos] “Sim, não, talvez… Faz parte de mim. É natural que se expresse de alguma forma na música que interpreto. Em música vale tudo.”

Um exercício que gosta de fazer é imaginar o produto de um músico conhecido caso tivesse nascido na mesma altura de Renato e bebido das mesmas influências que o setubalense. “Ocorrem-me resultados curiosos e tento transportá-los para mim. Gosto de misturar e ver o que acontece. Penso que o meu esforço é no sentido de fazer parte da evolução musical.”