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“A economia é um mundo frágil”

Boguslawa Sardinha

maio 2019

De Rybnik, na Alta Selésia, Polónia, para Setúbal. A escolha de Boguslawa Sardinha, economista, docente e diretora da Escola Superior de Ciências Empresariais do Instituto Politécnico de Setúbal foi feita há 35 anos. Uma decisão difícil e arriscada. Mas tinha a economia e o coração como aliados.

Sempre teve jeito para as ciências e a insistência de uma professora de liceu leva-a, aos 19 anos, até a uma universidade em Poznań. “Estava muito longe de casa.”

O curso superior deu-lhe a formação e apresentou-lhe o amor. Um setubalense, com quem casou.

A instabilidade político-económica na Polónia precipitou a mudança. “Quando temos vinte e poucos anos não se pensa muito e arrisca-se.”

Recorda, sem hesitações, a primeira sensação ao chegar a Setúbal. “O cheiro a mar e muita luminosidade. Era tudo tão diferente.” Não se arrepende.

A barreira linguística foi ultrapassada com a ajuda da sogra, “uma excelente professora, com muita paciência”, essencial para enveredar, em 1986, numa união de cooperativas, como responsável pelo setor económico-financeiro, na qual fica alguns anos.

A conclusão de um mestrado em Economia Político-Social no Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa abre-lhe novos horizontes, com o reconhecimento do curso feito na Polónia. “Não podia falhar porque estava muita coisa em jogo”, sublinha Boguslawa Sardinha, 57 anos.

É também nesta altura que toma contacto com uma frase de Bento de Jesus Caraça que, ainda hoje, constitui um esteio inabalável. “Se não receio o erro é porque estou sempre pronto a corrigi-lo.” Este conceito deve ser “transversal a todos os economistas”.

Neste sentido, defende que “um bom economista deve ser humilde”, uma vez que “a economia é um mundo frágil e nada é by the book”. Acrescenta ainda que a “economia adora equilíbrio”, motivo pelo qual, “quando se começa a fazer experiências, normalmente a coisa corre mal”.

Após o mestrado candidata-se ao Instituto Politécnico de Setúbal, instituição na qual está desde 1997. Percorreu toda a carreira de docente e, desde 2013, é diretora de uma das escolas. Uma tarefa “desafiante mas desgastante”, até porque, sente falta de ter tempo para lecionar.

“Adoro dar aulas, principalmente para os alunos de primeiro ano e pós-laboral.” O contacto é recompensador. “Tento transmitir o entusiasmo que tenho pela economia. O resto têm de ser eles a procurar. E também lhes ensino algumas coisas”, graceja.

A falta de tempo reflete-se na escrita de opinião. “Obriga-me a procurar ideias para abordagens económicas”, como o Brexit, “um teste de stress para o qual a União Europeia tem de criar mecanismos de resiliência”.

A atualidade deixa-a inquieta. “O aumento de desigualdade é preocupante e há sinais que apontam para um cenário de uma mudança estrutural profunda.”

Sente-se de Setúbal, mas as raízes estão firmes na terra natal. “Com pena, não tenho muito tempo para viver a cidade.”

Aos fins de semana, desfruta de pequenos prazeres, como jardinagem e literatura. “E, agora, também tenho os meus netos.”

Para o futuro, há novas ambições, como um projeto internacional na área da economia social, voltar a lecionar com regularidade e participar mais ativamente na sociedade. “Tenho a obrigação de contribuir com o meu conhecimento, de partilhar aquilo que recebo.”