Há cerca de três décadas, em miúdo, o impulso para a arte dava os primeiros sinais quando começou a fazer bandas desenhadas com as figuras dos desenhos animados preferidos. Depois, já jovem, largou as folhas de papel, as canetas, os lápis. Acedeu a outro mundo. A intervenção no espaço público.
Começou a colar nas ruas autocolantes e posters que ele próprio produzia e a pintar graffiti. Isto entre 2004 e 2005. O movimento graffiti e street art cresciam. Quando agarrava uma lata de spray ou colava stickers em fábricas abandonadas, sentia a comunicação através da arte a pulsar.
Hoje, aos 35 anos, João Samina, ou melhor SAMINA, está diferente. Consolidou-se. Fortaleceu-se. “A street art e o muralismo são os campos em que trabalho.”
Os conhecimentos adquiridos na licenciatura e mestrado em Arquitetura, diz, ajudam-no a compreender melhor o espaço onde a pintura se vai enquadrar e o espaço da cidade onde ela vai existir.
“Isso pode refletir-se tanto na maneira como faço a composição, como na forma como compreendo a escala dos murais ou dos objetos que estou a pintar, ou até na maneira como uso as cores.”
Nos últimos 15 anos, tem deixado o trabalho inscrito em vários países e cidades, transformando-se num dos mais importantes artistas urbanos portugueses. O mundo expandiu-se, mas o fascínio pela arte urbana, seja ela decorativa ou reivindicativa, continua a ser o mesmo de sempre.
“Se limitarmos os espaços onde a arte pode acontecer a museus, galerias ou salas de espetáculo, vamos estar a excluir automaticamente uma série de gente que pode não ter acesso a esses lugares. Além de outras pessoas que até poderiam ter acesso, mas que não foram incentivadas a isso”, refere. “O ser humano precisa de arte para lidar melhor com a maneira com que vive os espaços onde transita, seja do ponto de vista físico, seja do ponto de vista mental e psicológico.”
Em cada trabalho, cativa-o as emoções, a busca, os novos desafios, os diferentes contextos, o conflito/equilíbrio nas composições geométricas, a representação natural humana, o atribuir novos sentidos aos lugares, as memórias, as identidades locais, sem descurar a própria identidade. “Se é o SAMINA a fazer, tem de ter a minha identidade.”
E ele tem experienciado tudo isso. Na Quinta do Anjo, concelho de Palmela, onde morou e desenvolveu o MAU – Mostra de Arte Urbana, em Lisboa, onde estudou, no Rio de Janeiro, onde constituiu família e reside atualmente, e em Setúbal, lógico, onde nasceu e cresceu.
Quando aceitou o desafio da Associação Cultural Sebastião da Gama, em parceria com a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia de Azeitão, para desenvolver, no exterior do edifício da Casa do Povo – Centro Infantil Sebastião da Gama, um mural sobre o poeta e pedagogo, aceitou logo.
“Sebastião da Gama foi um apaixonado pela Arrábida como eu, e acabou por ser uma oportunidade para mim, não só para me debruçar sobre a obra dele, mas também uma forma de falar através da minha pintura sobre a serra, que me acompanhou a vida toda.”
Além de continuar a dividir-se entre Portugal e o Brasil, tem uma outra certeza: vai continuar a criar. “No dia em que isso deixar de acontecer, serei certamente mais infeliz em todos os outros papéis da minha vida.”