Guia de Eventos de Setúbal

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“Andei sempre ao sabor da crise”

Domingos Cruz

novembro 2020

O primeiro contacto de Domingos Cruz, setubalense das Fontainhas, com o mundo da pastelaria foi aos 12 anos, na Capri, espaço onde, aos 24, se tornou chefe de oito pasteleiros com idade para serem pai dele. Era o início de um percurso feito de doces.

O chef-pasteleiro não se lembra qual foi a primeira iguaria doce que cozinhou, “talvez massas, folhada, brioche, e cremes”, mas não esquece “a equipa fantástica” que conquistou pela confiança.

O sucesso na profissão e “a vontade de mais” fizeram-no “dar o salto” e investir num negócio próprio, o antigo Pé de Salsa, na Avenida 5 de Outubro. “Servíamos refeições e fazíamos doces para casamentos. Meti-me numa andança,” comenta, com boa-disposição.

Doze anos depois trespassou o negócio e mudou-se para a Rua Arronches Junqueiro, na Baixa, para a Pastelaria Sónia, onde permaneceu outros doze anos. “A crise dos anos 80 e oito meses de obras de colocação de esgotos na rua ditaram o fim da casa.”

Domingos Cruz virou-se para o ensino da doçaria. Ensinou pastelaria em escolas profissionais e de hotelaria, e até no Estabelecimento Prisional do Linhó, e viu alunas premiadas em concursos profissionais.

Até que uma nova recessão económica e a mudança dos paradigmas do ensino ditaram a diminuição das turmas de futuros pasteleiros. “Andei sempre ao sabor da crise e a verdade é que aproveitei essas alturas para mudanças positivas na minha carreira”.

Foi então que, em 2016, criou a Doces Afetos. “Depois de pensar no que faria, a sentir que já não tinha pachorra para abrir um espaço comercial, comecei a magicar pastéis e a fazer feiras com bolos secos.”

Numa feira no Bairro do Viso nasceu a primeira criação oficial de autor, o Visigodo. Em quatro anos, Domingos Cruz vendeu mais de cinco mil pastéis desta iguaria.

As novas criações “só demoram um momento de inspiração”. Começa sempre por definir os ingredientes e só depois compõe o pastel. Entre provas e afinações de sabores sai a versão final.

Da panóplia fazem parte criações como os pastéis Mourisca, Bocagiano e Festasso e a Queijada da Baía, entre outros. O denominador comum é serem feitos com produtos típicos da região. Mel, laranja, moscatel, queijo de cabra, requeijão, uva, amêndoa e noz, salicórnia, hortelã.

O tremoço, a farinha de milho e o anis são ingredientes usados na recente criação, o pastel Sadino, lançado a 15 de setembro, Dia de Bocage da Cidade. “Gosto sempre de os apresentar em datas importantes e, se for com uma festa, melhor”, salienta.

O pastel Sadino é para Domingos Cruz uma homenagem ao pai, pescador, com quem comia farinha de milho no barco, uma lembrança do anis outrora fabricado na Pastelaria Abrantes e também um regresso às memórias de infância para homenagear uma antiga vendedora ambulante de tremoços e amendoim torrado.  

“Quando era miúdo, na Doca das Fontainhas, havia uma mulher que deixava os sacos de tremoço dentro do rio para incharem. Nós íamos lá e comíamos sem ela ver. Muitos tremoços lhe comi. Muito nos riamos todos a fazer aquilo à senhora”, conta o pasteleiro, que, hoje, aos 69 anos, conduz workshops em diversos locais.

Da Doces Afetos, que começou “por carolice” e que se transformou “num projeto de vida”, saem entre trezentas e quatrocentas unidades de pastéis, só ao fim de semana. “Todos os dias faço doces, que são feitos da essência de Setúbal. A minha vida é feita de doces.”