A inclusão de pessoas com deficiência intelectual é promovida na oficina culinária Cozinha Vizinha. Uma partilha de saberes e sabores feita com base num processo colaborativo para ajudar a transformar vidas.
Hoje há cozido à portuguesa. Rústico, farto e carregado de tradição. É o prato do dia de mais uma sessão Cozinha Vizinha, uma oficina culinária colaborativa temperada com saberes e sabores, preparada com amor, feita de aprendizagem e de partilha. A receita é de alimento e inclusão.
Couves, cenouras, nabos, batatas, carnes e enchidos acabados de comprar chegam à cozinha das instalações do Viso da APPACDM de Setúbal, entidade parceira do município no desenvolvimento desta iniciativa para inclusão de pessoas com deficiência intelectual.
A manhã, chuvosa, já vai adiantada. Passam largos minutos das onze e há muito que fazer. E um cozido não se faz à pressa. “Bora lá, vamos reunir”, diz Vanessa Amorim, uma das três técnicas municipais, juntamente com Débora Florindo e Joana Coelho, a acompanhar a sessão.
Na maior bancada da cozinha, a equipa reúne-se para a distribuição de tarefas. A preparação de um cozido é um ritual com segredos. Por isso, há que chamar uma especialista. “Dona Conceição [moradora do Bairro Grito do Povo, que colabora na iniciativa], precisamos de si aqui!”
No fogão, água com sal repartida por quatro tachos já está à procura de fervura para receber a matéria-prima. A couve-lombarda é a primeira a ir lume, assim como as carnes, separadas. “São os que demoram mais tempo a cozer”, revela a especialista.
Entretanto, os utentes Ana, Daniel, Diogo, Manuela e Ricardo concentram-se na mise en place, com cenouras e batatas a serem preparados com perícia. Sempre com supervisão e banda sonora. “Alguém quer pedir alguma música”, questiona Maria Santos, da APPACDM, que orienta a Cozinha Vizinha.
Os legumes seguem para a fervura. Calma, ainda falta o nabo. “Só partido ao meio”, diz a Dona Conceição, de olhos postos nos tachos que já esfumaçam, com tudo o que é preciso para o repasto, que ainda demora mais de uma hora até ficar no ponto.
Entretanto, preparam-se os tabuleiros para a refeição, limpam-se bancadas, lavam-se utensílios de cozinha e faz-se a separação seletiva de resíduos, orgânicos e recicláveis, tarefas que estimulam a aprendizagem, a autonomia e a entreajuda de utentes.
A oficina Cozinha Vizinha é um projeto de transformação social do PRR, Comunidades em Ação, candidatura OIL – Operação Integrada Local na União das Freguesias de Setúbal, Coesão Socio-territorial Através das Margens.