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bastidores

O outro lado da cena

março 2020

Cinco histórias curtas formam a obra “Hot Tea”, de Harold Pinter, apresentada pela AJAGATO. O palco do Luísa Todi, transformado numa metáfora do quotidiano urbano, usa um cenário com diferentes espaços e enquadramentos síncronos de luz e som

 

Em “Hot Tea”, o encenador Mário Primo serve-nos um “chá quente” com os cinco textos curtos de Harold Pinter, um dos maiores representantes do teatro moderno, vencedor do prémio Nobel da Literatura em 2005.

“A Noite”, “Nova Ordem Mundial”, “O Candidato”, “Victoria Station” e “É só isso” estão retratados na 38. ª produção da AJAGATO – Associação Juvenil Amigos do Gato, companhia de teatro de Vila Nova de Santo André, apresentada em janeiro no Fórum Municipal Luísa Todi.

“São histórias escritas nos anos 60, 70, curtas, de gente comum, frágil, solitária e oprimida, que evidenciam a problemática da violência e do sofrimento humano em diferentes realidades contemporâneas”, descreve Mário Primo.

O elenco, com Patrícia Figueira, Raul Oliveira, Tomás Porto e Rogério Bruno divide-se no palco em cinco momentos distintos, nos quais a componente verbal e não-verbal, a luz, a música e o arranjo cénico funcionam equilibrados na criação do espetáculo.

“Não nos limitamos a criar uma história. Procuramos um espetáculo que possa ser recebido pela beleza e pela sensibilidade”, refere.

Toda a dinâmica da apresentação em palco de “Hot Tea” leva aproximadamente um dia a preparar. Em Setúbal, parte do elenco arregaça mangas ao lado da equipa técnica para construir as situações que contribuem para a vida da história.

Nos cinco cenários, pensados por João Calvário, existe uma unidade cromática em tons de cinzento, com painéis de madeira movíveis para criar contextos cenográficos distintos.

O mobiliário, de linhas direitas, igualmente em tons de cinza, é concebido de forma simbólica. “Apela à imaginação do público e recusa soluções realistas que seriam impossíveis para as peças mais difíceis”. Há cadeiras, secretárias, malas de viagem, uma telefonia e, entre outros elementos, uma tábua de passar a ferro. A composição em palco resulta, por exemplo, numa sala de estar e numa central de radiotáxis.

Sempre presente está um relógio, branco, que assinala a passagem do tempo em cada uma das cinco histórias. “Quando se constrói um espetáculo há aspetos que ficam subliminares e que o público recebe de uma forma difusa”, esclarece.

A conceção cénica e a uniformidade cromática são igualmente pensadas tendo em conta o universo de Pinter. A luz também assume particular importância, para valorizar os volumes e os planos móveis, permitindo a utilização de cores, sombras e imagens.

“Em termos estéticos e teatrais, a mutação do cenário é pensada como uma continuação. Há música e iluminação próprias que ajudam à mudança cénica e tornam o momento apelativo. Tudo muda à frente dos olhares do público.”

Já o guarda-roupa de Helena Rosa situa a época e a geografia das histórias, dá coerência cromática e equilíbrio ao conjunto das cenas.

Ao longo de noventa minutos de presença em palco, a dinâmica cénica é ainda acompanhada pela música criada em exclusivo por DJ Choices, nome artístico de João Martinho.

Montado o cenário, acertada a luz a cada momento e verificada a música, é tempo de um ensaio de última hora, antes da derradeira apresentação, a qual, confessa Mário Primo, é sempre encarada “como se fosse a primeira vez”.