Guia de Eventos de Setúbal

bastidores

Século e meio

julho 2019

A banda da Capricho tem o peso de um tempo em que a entrada a mulheres era proibida. Hoje, o cenário dos bastidores é outro. São crianças, jovens e adultos e tocam todos juntos em diálogos intergeracionais

 

Foi a primeira a chegar. Sentada num dos bancos instalados na zona central do Largo da Misericórdia, de frente para a porta do edifício da Sociedade Musical Capricho Setubalense, Beatriz espera pelos restantes companheiros para mais uma noite de ensaios. Com 16 anos, toca trompete na Banda de Música da coletividade há sensivelmente seis meses.

No salão nobre da Capricho, no primeiro piso, com vistas largas para as ruas do centro histórico, atrás de trombones e trompetes, a segurar trompas, tubas, flautas e clarinetes, estão mais de trinta músicos. São estudantes, profissionais em diferentes áreas, reformados. O Afonso, o mais novo da Banda de Música, tem 7 anos. O mais velho, Daniel Malão, 80.

O material está montado e os instrumentos aguardam os músicos que vão chegando minuto a minuto. Todas as quintas-feiras encontram-se para ensaiar, sob direção do maestro Joaquim Silva, sonoridades cristalinas, dos naipes dos sopros, e energizantes, dos instrumentos de percussão.

“A nossa maior missão é continuar a formar talentos”, explica Joaquim Silva, a meio do ensaio, que começa às nove e meia da noite em ponto, com afinações dos instrumentos musicais, cedidos pela Sociedade Musical Capricho Setubalense, coletividade com aulas de sensibilização musical para crianças dos 3 aos 6 anos e também sessões para adultos.

Das mãos de Vítor Lourenço vão saindo notas de saxofone. Depois de afinar o instrumento, dá mais um gole na água, ganha fôlego e saem-lhe, dos movimentos dos dedos e da respiração pelo diafragma, sons encorpados característicos daquele instrumento de sopro. De sorriso fácil, Vítor ainda se lembra dos tempos em que a Banda de Música da Capricho era composta apenas por elementos do sexo masculino.

“Quando entrei só havia homens de barba rija. Eu era um puto no meio deles. Já passaram 57 anos. Não se via uma única mulher”, recorda. “Estive sempre cá. Nunca me desliguei da banda.”

Fundada em 1867, a corporação de músicos nasceu da união de dois agrupamentos, Os Amarelos e Os Vermelhos. Ao longo dos 152 anos de atividade, participou na inauguração da estátua do poeta Bocage, na visita real do rei D. Carlos a Setúbal e nas comemorações da virada do século e num dos concertos da festa do V Centenário do Tratado de Tordesilhas.

Atualmente, a banda, pedra angular na promoção e democratização do ensino musical, é formada por 41 músicos e tem inscrições abertas a quem queira fazer parte dela. São só precisos três requisitos: disposição, disponibilidade e gosto pela música. O resto, as amizades, as trocas de aprendizagem, a partilha de experiências e de ideias surgem por arrasto e tornam-se óbvias entre todos.

Por agora, estão todos a ultimar os preparativos de uma performance para um festival de bandas filarmónicas na cidade. Os olhos vão bailando entre a partitura e a batuta na mão do maestro. “Ok, vamos lá, pode ser? 1, 2, 3 e…”, começa Joaquim Silva, professor de música e regente da banda há uma década.

Como é natural em qualquer ensaio, nem tudo sai perfeito. Há notas fora do sítio ou depois do tempo, burburinhos de fundo.

Os ponteiros do relógio apontam para as onze horas da noite. Todos arrumam os materiais e os instrumentos. Beatriz foi a primeira a chegar. E uma das últimas a sair.