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Guia de Eventos de Setúbal

pessoa

Rita Vilhena

“Dançar é um lugar onde me encontro comigo”

março 2026

“Dançar pode ser muita coisa. É um lugar onde me encontro comigo própria.” Assim começa Rita Vilhena. A frase constrói-se como o movimento, com pausa e respiração. “É um lugar onde me encontro com o meu corpo, talvez numa dimensão não verbal.”

A relação com a dança começou cedo, aos quatro anos, na Academia de Dança Contemporânea de Setúbal. “Ainda chuchava no dedo”, recorda. A exigência era grande, a vida familiar dividida entre quatro irmãos, houve um interregno e a pergunta decisiva: “O que posso ser sem ser bailarina?”

Esse questionamento levou-a a Contabilidade e Finanças, no Instituto Politécnico de Setúbal. Durou um ano. “Percebi que não era aquilo.”

Voltou à dança aos 18 e nunca mais parou. Formou-se na Escola Superior de Dança e partiu para Roterdão, para a Codarts, onde encontrou uma abordagem mais contemporânea. Viveu 13 anos na Holanda, criou a plataforma Baila Louca e procurou uma linguagem própria, afastando-se de formatos mais fechados.

A partir de 2013 desloca o foco da criação centrada em si para a dança enquanto ritual e espaço de comunidade. “Como intensificar a presença e o estar juntos?” A pergunta atravessa o seu percurso. Aproximou-se de práticas da diáspora brasileira, como o candomblé e o Santo Daime, interessando-se pelo corpo como lugar simbólico e transformador.

Mais tarde regressa à autobiografia com outra consciência. Em “Raio de Ti” apropriou-se de cerca de 150 horas de imagens filmadas por um cineasta que explorou a sua imagem de forma erotizada. O filme nunca foi concluído. Rita revisitou o arquivo e recontou a história a partir do próprio lugar de fala.

O processo tornou-se objeto de investigação académica e gesto de emancipação artística. “Mais do que um ajuste de contas, foi um investimento, uma construção e um trabalho de cura.”

Dessa experiência nasceu “C-O-M: Composição – o Outro – Memória”, apresentado no Fórum Municipal Luísa Todi. Se antes perguntava como contar a própria história, agora questiona como contar a do outro. Em palco, escuta memórias do público e recria-as em tempo real através do corpo. “O maior desafio foi compor em tempo real.”

O espetáculo cria um espaço íntimo onde a fronteira entre intérprete e espetador se dilui. “Há tantas maneiras de estarmos juntos. Esta é uma delas.”

A reação de pessoas pouco habituadas à dança contemporânea emocionou-a.

Setúbal é parte desse percurso. Cresceu na freguesia de São Sebastião, atravessava a cidade entre a Escola Básica Barbosa du Bocage e a Academia de Dança Contemporânea de Setúbal, na altura localizada no Largo José Afonso, passava verões em Troia, “quando era de todos”. Guarda a memória da liberdade. “A cidade era quase uma vila. Eu podia percorrê-la e sentia-me segura.”

Ser artista independente em Portugal é, diz, “uma resiliência e uma precariedade constantes”. Questiona a desvalorização da cultura e a obsessão pela produtividade. Ainda assim, continua. Acredita que a criação é essencial à condição humana.

E o que deseja que o público leve consigo? “Desejo que não saiam apáticos dos meus espetáculos, nem indiferentes. Que atravessem alguma coisa. Um suspiro, talvez. Um novo alento.”

Para Rita Vilhena, dançar é criar condições para que algo aconteça entre corpos, memórias e presenças.