A diversificada e surpreendente obra de Gustav Klimt, influenciada por vários movimentos e plena de opções estéticas, faz dele um pintor não identificável com um movimento artístico em concreto, ou mesmo com dois ou três. O seu percurso estende-se entre uma sólida formação académica até a um vanguardismo nunca antes visto.
Do classicismo ao romantismo, do impressionismo ao expressionismo, da arte nova ao simbolismo, chegando quase ao abstracionismo pleno, a sua obra de tudo contém. No entanto, não se pense que ela seja um somatório de trabalhos dispersos de forma incoerente, fruto de impulsos espontâneos. Nela existem reflexões e aturados estudos que consolidam todo um trajeto.
As obras onde se funde a figura humana com decorações florais e geométricas, às quais se somam formas e linhas de cariz orgânico, e onde os tons dourados estão muitas vezes presente, são as que mais surpreendem em Klimt e que o tornam mais reconhecido. O Abraço está nesse lote notável de obras.
Sabendo o seu título, neste quadro identificamos facilmente um casal abraçado, mas provavelmente não teríamos a mesma facilidade se o não soubéssemos. Da mulher, apenas são visíveis dois detalhes anatómicos: o rosto e uma mão. Do homem apreende-se dum modo menos imediato a nuca com cabelo escuro e uma pequena área do pescoço e costas.
Ele veste uma túnica colorida que desce até ao chão. Dela, cuja presença está quase toda tapada pela dele, vê-se uma estreita faixa que corresponde a um vestido. Contudo, essas peças de roupa não têm volume nem pregas que revelem as formas dos corpos que cobrem. São planas e estão preenchidas por uma imensidão de formas geométricas e orgânicas, vegetalistas e animalistas sintéticas, plenas de fantasia poética, que não formam propriamente um padrão.
Sobre o fundo amarelo serpenteiam espirais douradas, a que pontualmente se juntam pequenos triângulos e formas que se assemelham a olhos, aos pares, mas um sobre o outro.
Se taparmos ou ignorarmos o rosto e a mão da mulher, assim como a cabeça do homem e alguns pormenores que identificamos como oriundos da realidade visível, estaremos perante um quadro abstrato.
António GalrinhoArtista plástico
