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A Cantadeira
compasso

A Cantadeira

maio 2019

Sempre admirei aquelas pessoas que, desde cedo, sabiam o que queriam da vida. Que desde novas encaminharam as suas decisões com um objectivo muito claro. Eu nunca fui uma dessas pessoas. Nunca soube, de caras, o que queria ser quando fosse grande.

Acredito na paixão e fui-me apaixonando por muitas coisas diferentes, experimentando e desistindo, desinteressando-me e descobrindo novas inspirações. Fui-me perdendo na tentativa de me enquadrar, de ser aceite, na tentativa de pertencer e de seguir um percurso esperado. Quem não quer pertencer a algo, ou a alguém? É nessa tentativa e erro que nos vamos conhecendo melhor, que nos vamos construindo. Mas é também aí que nos podemos irremediavelmente perder.

Sempre tive em mim a sensação estranha de não ser plena, de não ter o meu lugar. No entanto, havia algo constante de que não me dei conta até à vida adulta. O meu caminho estava à frente dos meus olhos e eu não o via. Por ser tão natural, tão presente, não lhe dei o devido valor – era a cantadeira que havia em mim. Foi em 2002 que descobri o canto tradicional e o adufe no I Encontro de Tocadores em Nisa. A cantadeira que havia em mim despertou, olhou-me nos olhos e disse: “É aqui o teu lugar.” E quando finalmente sabemos onde pertencemos não o devemos deixar escapar mais, e eu não deixei. Eu tinha o meu País em mim e não sabia, não conhecia, deixara-me levar por preconceitos.

Afinal tinha sido sempre cantadeira e essa certeza enraizou-se à medida que fui conhecendo melhor uma cultura musical mais recôndita, menos divulgada. Uma riqueza incalculável, presente em canções de trabalho, de romaria, canções de fé, de ritmos, pandeiros, adufes, gaitas-de-fole e as especificidades que tornam cada região única.

Ainda me licenciei em Arqueologia e, mesmo nunca tendo exercido, acabei por aplicar esse meu gosto pelo passado debruçando-me sobre a cultura musical do meu País: a história de cada canção e o seu enquadramento. Se as tradições se vão perdendo pela mudança dos tempos, as canções também vão ficando para trás. Então, quando dei por mim, estava a cantar a memória, a adaptá-la e a transportá-la para os meus projectos, desde os Dazkarieh, com quem percorri meio mundo, até aos Seiva, mais recentemente.

Eu não me queria dividir mais porque as paixões têm de ser vividas em pleno e a tempo inteiro, não toleram divisões.

Há quem nunca se encontre, há quem leve mais tempo, há quem o saiba muito cedo. O importante é termos a coragem de seguir as nossas paixões mesmo que, à nossa volta, ninguém o compreenda. Esse é o maior desafio. O nosso lugar somos nós próprios e é connosco que vivemos toda a vida.

 

Joana Negrão

Cantadeira, Compositora, toca Adufe e Gaita-de-fole

 

Texto escrito com as regras anteriores
ao novo acordo ortográfico