Em França, a partir dos anos 20 do séc. XIX, começou a ser questionado o divórcio que existia entre as academias e a realidade. Como consequência disso surge o Naturalismo na Escola de Barbizon, a poucos quilómetros de Paris. Nela um grupo de jovens pintores que abandonou a cidade e o ensino académico vai registar o dia-a-dia dos camponeses daquela aldeia, assim como as paisagens dos campos em redor.
Na geração seguinte aparece o Realismo, que se opõe tanto ao racional e anacrónico Neoclassicismo, como ao místico e melancólico Romantismo. Motivados pelas ideologias de esquerda que ganhavam forma e adeptos na época, ou pela simples observação da realidade, alguns artistas viram-se para o quotidiano das pessoas comuns, para as precariedades da sua condição social, laboral e humana.
Gustave Courbet surge à proa da pintura realista, sendo Os britadores de pedra um dos quadros mais emblemáticos do movimento. Nele estão representados um adolescente e um homem que já passou da meia-idade, vestindo roupas andrajosas, entregues à árdua tarefa de abrir uma estrada, num troço onde existe um afloramento rochoso.
Os corpos dos trabalhadores estão curvados pela ação, mas também pelo esforço e pelo cansaço. Os seus rostos não estão visíveis, como que por vergonha, mas também para simbolizar todos aqueles que trabalham e vivem em condições miseráveis e de exploração. A diferença de idades remete-nos para a questão da continuidade. Pode ser um filho com o seu pai; ou pode apontar para uma condição da qual dificilmente eles poderão sair.
De notar ainda que às ferramentas de trabalho se junta uma panela, e ao seu lado um pequeno pano com uma colher e um pão. Está ali a refeição destes trabalhadores. À vista de quem observa a cena, o pão surge na trajetória do martelo, certamente por estar quase tão duro e escuro como a pedra que está a ser britada.
(Esta obra está desaparecida desde a 2ª Guerra Mundial. Oficialmente, terá sido destruída num bombardeamento, mas pode ter sido roubada e estar nalguma coleção particular.)
António GalrinhoArtista plástico