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A dança da vida
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A dança da vida

setembro 2020

Edvard Munch é conhecido sobretudo por O grito, mas a sua obra está repleta de surpreendentes quadros feitos no seu peculiar estilo de pinceladas largas e longas, manchas com cores fortes e ausência de detalhe. Trata-se de caraterísticas do Expressionismo, movimento que ele antecipou uma década e meia.

Munch é oriundo duma família onde houve diversos problemas de saúde e mortes precoces, tendo ele sofrido toda a vida com problemas psíquicos. As suas opções estéticas revelam, pois, um mundo interior sofrido. Quando ele representa o sofrimento dos outros está lá também o seu, em grande parte. Nesse sofrimento existe medo, angústia, desespero e morte.

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A dança da vida foi pintado em 1900 e faz parte dum conjunto de obras designado por O friso da vida. Neste quadro, meia-dúzia de casais dança na rua. O Sol ou a Lua põe-se ou eleva-se por trás do mar. Talvez se trate do nascer-da-lua cheia num momento que antecede o pôr-do-sol, o que parece explicar a luminosidade algo ténue da cena com cores ainda fortes. 

Não estamos perante uma composição realista, mas simbólica. Ou será que se trata duma composição simbólica, e não realista? O mais certo é tratar-se das duas coisas, pois o simbolismo de Munch não é esotérico ou sequer enigmático. Pelo contrário, evidencia-se facilmente porque se situa na vida quotidiana das pessoas, sendo por isso que nos revemos nas situações retratadas, ou nelas revemos alguém que conhecemos.

Os casais que dançam em segundo plano estão envolvidos numa certa luxúria. Os elementos do casal em primeiro plano estão hirtos. Ela, vestida de vermelho, do desejo, apoia uma mão nas costas dele, abaixo do pescoço, ele solicita-lhe a outra mão com a sua. Tocam-se a medo e estão hesitantes nos primeiros passos.

Duas mulheres estão sem par, por não terem sido escolhidas ou por terem sido rejeitadas. A da esquerda é solteira e virgem, a avaliar pelo branco do vestido e pelas flores, sorri e parece decidida a avançar; a da direita é viúva, a avaliar pelo vestido negro, está triste, cabisbaixa, de braços caídos e mãos juntas, e imóvel.

António Galrinho
Artista plástico