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Viagens Invulgares da Condição Humana
leituras

Viagens Invulgares da Condição Humana

julho 2019

“A minha primeira viagem fi-la a pé pelos campos. Só deram pela minha ausência passado muito tempo, o que me permitiu percorrer uma boa distância. (...) Debruçada no topo do dique, fitando a corrente, dei-me conta de que, apesar de todos os perigos, tudo o que está em movimento é sempre melhor do que aquilo que está em repouso, que a mudança é mais nobre do que a estabilidade, que tudo o que estagna acabará por sofrer decomposição, degeneração e transformar-se-á em pó, enquanto aquilo que está em movimento consegue durar eternamente.”

Olga Tokarczuk viaja sem detença entre o real e o imaginário. Uma experiência errante em que muitas das histórias, mesmo as reais, se assemelham a criações da imaginação. Deambula entre os géneros literários que escapam a qualquer estrutura linear. Um nomadismo que só muito raramente dá a perceber por onde a autora andou, que países visitou, de que lugares está a falar.

“Viagens” é uma compilação de fragmentos narrativos. Variam entre os extremamente curtos, de vinte palavras, aos ensaios de várias páginas, sobre temas tão diferentes como viagens aéreas, dança do ventre, Atenas, pensos higiénicos, hotéis de luxo, Cleópatra, aparecimento das espécies, etc. Histórias inverosímeis ou verosímeis que torna plausíveis como a de uma irmã de Frédéric Chopin que, secretamente, leva o coração do pianista de regresso a Varsóvia, de uma mulher que se vê obrigada a regressar à Polónia para envenenar o seu primeiro amor, de um homem que começa a enlouquecer quando a mulher e o filho desaparecem misteriosamente para reaparecerem subitamente, do anatomista Philip Verheyen que existiu na realidade e descobriu o tendão de Aquiles ou de uma mulher que acompanha o seu marido num cruzeiro nas ilhas gregas.

Um romance (será mesmo um romance?) em que o significado de se ser um viajante é o de um corpo em movimento através do espaço e do tempo relatado brilhantemente em histórias e personagens que existem ou são imaginadas. “Viagens” é um invulgar livro de fugas e evasões de uma viagem sem retorno ao absurdo da condição humana.

 

Viagens Viagens
Olga Tokarczuk
Edição: Cavalo de Ferro
Tradução: Teresa Fernandes Swiatkiewicz
Revisão: Raquel Dutra Lopes
Capa e projeto gráfico: Luís Alegre/Wonder Book Design
Ilustrações do miolo retiradas de The Agile Rabbit Book of Historical and Curious Maps (The Peppin Press)
1.ª edição Portugal: março 2019
1.ª edição Polónia: 2007
348 páginas

 

   

Manuel Augusto Araújo
Membro do Conselho de Redação da “Vértice”

 

Texto escrito com as regras anteriores
ao novo acordo ortográfico