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A leitora
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A leitora

março 2026

Fragonard é um pintor francês de estilo rococó, que pintou festas galantes, cenas de galanteio, namoro e lazer, retratos, cenas mitológicas, jogos e brincadeiras de adultos, muitas vezes em ambientes bucólicos. Excetuando nos retratos, raramente surge uma figura apenas nos seus quadros, como sucede em A leitora. Obviamente, isso impunha-se aqui, já que o ato de ler é essencialmente solitário.

A jovem está mergulhada na leitura, seguindo cada frase e cada palavra com entusiasmo e atenção extrema. O pequeno livro que segura está aberto e com as páginas visíveis para nós. Contudo, é-nos impossível saber o que tem escrito, já que cada linha é representada por uma pincelada continua, cinzenta. É um truque que o artista utiliza, como que lançando o isco para o conteúdo que, na realidade, não nos quer revelar. Isso adensa as nossas dúvidas mas também estimula o nosso interesse por outra leitura: a do quadro.

Outro truque consiste em representar a rapariga de perfil. Desse modo não lhe percebemos completamente o olhar nem a expressão do rosto. Mas, mesmo assim, dá para calcular o que estará ela a sentir e a pensar, sobretudo através do seu rosto corado e da ligeira tensão dos seus lábios vermelhos. A beleza do perfil, o penteado, o pescoço exposto e o peito subido e tenso conferem-lhe sensualidade. A agitação dos dedos da mão direita contrasta com a passividade da mão esquerda, caída do antebraço apoiado. Talvez revelem dualidade nas emoções que sente.

Uma fita violeta forma um laço no alto da cabeça, outra remata-lhe o decote. Uma gorgeira branca contorna-lhe o pescoço, apoiada nos ombros. O vestido amarelo é justo no peito, barriga e braços, mas amplo da cintura para baixo. A grande almofada parece continuá-lo. O fundo é neutro, para não nos distrair. É deixado espaço à nossa imaginação, como à da rapariga.

Olhando para a pincelada larga e espontânea, evidente sobretudo nas superfícies mais texturadas, parece que estamos perante um esboço, embora algo refinado. No entanto, Fragonard utiliza esta técnica em muitos dos seus quadros, mostrando que este tipo de pincelada não significa que um quadro esteja inacabado.

António GalrinhoArtista plástico

 

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